Conservadores e o “medo” da Educação.

conhecimento

Por que nossas elites têm tanto medo de uma população educada e bem instruída? Será que essas populações, quando bem formadas, podem de fato alterar os rumos de uma Nação? Acredita-se que sim, senão, não se menosprezaria tanto o ensino, a cultura e o saber. Tivemos vários exemplos de educadores que lutaram, por vezes, morreram na busca por melhores condições de educação para o conjunto da população. Apenas para citarmos dois, lembremos do baiano Anísio Teixeira (1900-1971) e seu projeto de Escola Integral (escola-parque) e do pernambucano Paulo Freire (1921-1997) que dizia que a educação tinha potencial libertador (de emancipação humana).

Pois bem, passaram-se anos, décadas, e estes e outros tantos educadores se foram e o ensino público neste país continua jogado ao ostracismo. Claro que atitudes pontuais sempre existem. Sempre haverá um caso bem sucedido, que pode facilmente ser usado em uma reportagem sensacionalista ou que apenas apresenta cenários positivos, onde um aspecto isolado se sobrepõe ao todo. Todavia, quando se fala de coletividades, o olhar tem que ser outro. Temos que ampliar o horizonte de análise, aumentar o campo de visão. Tentar apreender o máximo de possibilidades. Sim, estamos falando aqui da educação assentada no âmbito escolar.

Mas, claro que a educação é mais do que isso. Ela se desenvolve em casa, nas relações e interações sociais, na rua, no trabalho, no lazer, na comunidade, etc. Ou seja, a educação é muito mais que a Escola, é verdade, mas, porque as elites desse país têm medo de uma boa Escola Pública? Um caminho de resposta plausível para essa questão dá-se pelo fato delas manterem uma forte estrutura conservadora de pensamento e de prática de vida. Mesmo que se declarem “progressistas” e “liberais”, isso, no geral, apresenta-se apenas como um discurso vazio, descolado de suas práticas cotidianas. Basta ver como elas reagem diante de projetos que são criados para construção de uma boa formação educacional ou, pelo menos, para que se distribua melhor o acesso ao conhecimento. Afinal, é mais fácil governar e controlar uma população pouco instruída.

Citaremos dois casos emblemáticos e polêmicos: o programa nacional de reserva de vagas, “cotas”, que volta e meia é posto na vitrine, mas que, no fundo, é muito pouco ou quase nada debatido. Termina aparecendo algum “especialista” em alguma coisa e monopoliza a questão, com argumento de autoridade, sintetiza tudo dizendo que tal programa é anticonstitucional ou é “racista”, por restringir o acesso ou qualquer outra baboseira. O segundo caso, menos conhecido, trata-se da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) do MST. Uma escola praticamente auto-suficiente, com trabalho coletivo, horta comunitária, restaurante coletivo, biblioteca, auditórios, criação de animais, formação política, social, cultural e agrícola. Quer dizer, uma Escola exemplar, que, de fato, desenvolve a Educação no sentido ampliado do termo, mas que, vez ou outra, é criticada ferozmente pelas elites do país (e pelos seus meios de comunicação de massa).

Por fim, diante de uma rocha de valores arcaicos e retrógrados, cujo olhar está sempre voltado para os próprios umbigos, como poderemos falar em melhorias e mudanças sociais? Estarão essas elites dispostas a cederem espaços (físicos e simbólicos) para a massa pobre/trabalhadora? De outro lado, estarão dispostos a alimentarem o “inimigo”? Pois conhecimento, educação é poder, é libertador. E aí, eles irão correr esse risco? Pensem!

Bruno Durães

A coluna Sociedade vai ao ar todas as segundas-feiras aqui no Incomode-se. Acompanhem!

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Nossos bichos

haiti

Não sei se coaduna com os objetivos desse espaço, mas desde já quero deixar claro que não são grandes as minhas pretensões. Isso não significa que eu seja uma pessoa humilde, modesta, pacata, ou qualquer coisa do gênero, absolutamente. Estou apenas querendo poupar, agora, o trabalho de ter que pedir perdões posteriores. Não gosto dos pedidos de perdão. Acho-os desnecessários, supérfluos, embora saiba de antemão que as falhas são e serão sempre inevitáveis.

Se tiver alguma pretensão aqui, ela se resume à busca de estabelecer uma relação de confiança. Não entendam esse meu desejo como uma súplica para que creiam cegamente, interiorizem sem se indagar o porquê, o que digo como a manifestação da verdade. Queria apenas que acreditassem que se digo algo, o faço de maneira honesta.

Ontem, refletindo sobre o que escrever nesse encontro inaugural, buscando uma inspiração que, teimosa, não vinha, comecei a remexer em leituras antigas, escondidas no fundo da gaveta e foi então que me deparei com Drummond. Acho Drummond um poeta estranho, e devo admitir que, por mais que me esforce, nunca entendi o que ele pretendeu com os versos “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Tentava eu estabelecer um nexo, uma relação causal, entre mãos e sentimento, ainda mais, do mundo. Falhei na compreensão, embora de maneira paradoxal fosse exatamente o que sentia. Com duas mãos inertes diante da profusão de sentimentos cotidianos.

Na TV, começava o jornal. Engraçado, de uns tempos pra cá, os jornais não conseguem me surpreender; cada vez mais tenho a impressão de que as notícias se repetem, que nada de novo acontece. Passei os olhos na tela da Tv, sem muita curiosidade, e deparei-me, como nos dias anteriores, com o Haiti. Joguei a poesia de Drummond para o lado, e pensei que poderia escrever algo sobre o Haiti, mas, logo em seguida, cheguei à conclusão de que não queria falar do Haiti. Afigurou-se para mim naquele momento que era mais fácil não ver, não ouvir, não conhecer, para evitar o risco de sentir. De sentir o Haiti. Resgatei a poesia de Drummond, que parecia olhar para mim do lugar que a havia lançado, e pela primeira vez aqueles estranhos versos começaram a fazer algum sentido. Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

Tragédias como essa do Haiti, ou como as enchentes em São Paulo, ou a guerra do tráfico no Rio de Janeiro, ou outras tantas que não alcançam a notoriedade, tem o costume de levar para os holofotes especialistas em sociologia, filosofia, meteorologia, ou sei lá o quê. Não desprezo, pelo contrário, enalteço as descobertas fantásticas da racionalidade humana. Mas não era bem um tratado de sociologia ou uma análise aprofundada sobre o efeito estufa que eu precisava naquele momento para acalentar meu coração. Eu queria um pouco mais de sentimento. Queria que nem que fosse por um instante, o horário nobre da TV se rendesse a Vinicius de Moraes, angustiado ao ouvir “os passos na noite que se perdem sem história”, ou ao sentimento do mundo de Drummond, ou quem sabe até, a Manuel Bandeira. Queria que a luz abaixasse e que a voz grave do ancora pudesse dizer:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Queria um pouco mais de sentimento, para talvez tornar a miséria humana, um pouco mais humana. Não queria vê-la apenas como mais um capítulo, que terminha hoje e recomeça amanhã, no mesmo horário, no mesmo canal, como se durante todo esse intervalo de tempo aquelas cenas deixassem de existir e aquelas pessoas deixassem de existir.

Os bichos haitianos, os bichos brasileiros e os africanos e todos os outros bichos estão sempre por aí, em cada esquina, do Haiti ou daqui, mas nos interessa tão pouco. Fechei o livro de Drummond que segurava em minhas mãos, desliguei a TV, já era tarde, e fui dormir. Deitei-me, e o sentimento que eu tanto esperava, ou já havia se dissipado, ou talvez nem tivesse chegado. Pensava apenas que dali a poucas horas começaria mais um dia, e que é tão mais fácil conviver com a covardia resignada, do que se permitir a sentir, os bichos ou o Haiti. Confesso que tive vontade de pedir perdão, mas não sabia a quem fazê-lo. Ainda bem que foi só um rompante, teria me arrependido, não gosto dos pedidos de perdão.

J. Dannieslei

 

Referencias aos poemas:

“O Haver”, Vinicius de Moraes

“Sentimento do Mundo”, Carlos Drummond de Andrade

“O Bicho”, Manuel Bandeira

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Células da esperança

pesquisa celulas 

Desde que o mundo é mundo, as doenças crônico-degenerativas, aquelas que tem caráter progressivo e não curável, sempre tiveram um enredo clássico: a descoberta da enfermidade , o tratamento paliativo e o óbito do paciente. Com a evolução da medicina, a fase da descoberta da doença está cada vez mais antecipada. Isso se dá devido aos modernos métodos de diagnóstico por imagem e a supra-qualificação das equipes médicas. A fase do tratamento também evoluiu. Com terapias alternativas ou não, ela prolongou a vida de muitos pacientes e também aplacou o sofrimento de muitos até a chegada da terceira e mais triste fase: a morte pelo motivo da doença.

O desafio das pesquisas na área de saúde sempre foi o de quebrar essa cadeia e inverter a situação em favor da vida. E a virada parece estar chegando! Com a descoberta das células tronco-embrionárias o jogo começou a mudar: essas células, que são retiradas de embriões, têm, em determinado estágio de maturação, a capacidade de se diferenciar e formar outras células, podendo formar novos tecidos (pele, ossos, órgãos, etc.), dando assim uma chance nova aos portadores das doenças degenerativas de poderem chegar ao último estágio da enfermidade com pelo menos uma causa diferente.

Os empecilhos para as pesquisas com células-tronco residem na própria sociedade, e são, principalmente, de cunho ético ou religioso. Os primeiros nos trazem a pergunta: É justo tirar uma vida (do embrião) para salvar outra (do doente)? Dispõe o art. 5° da nova Lei de Biossegurança (2005) que as pesquisas e terapias com células-tronco só podem ser realizadas se obtidas de fertilização in vitro, de embriões que sejam considerados inviáveis e que estejam congelados a mais de 3 anos. Mas quem garante, caro leitor, que assim como outras leis aqui no Brasil, essa também não seja burlada? Os entraves religiosos nos trazem a ideia de que o embrião já é considerado um ser humano, não podendo ser sacrificado para qualquer fim e que a “vontade do Criador” deve prevalecer ao nascer e ao morrer. Dizem que seria como “brincar de ser Deus”. Mas será que em Estados cada vez mais laicos, esses dogmas prevalecerão? Quantas vezes a igreja se retificou ou mudou sua opinião ao longo da história, atendendo a interesses próprios?

A sociedade tem o dever de responder (e rápido) a essas indagações. Ao longo de poucos anos ao lado das fragilidades, medos e inseguranças dos pacientes com doenças crônico-degenerativas, aprendi a olhar a sobrevida dos mesmos com um pouco de frieza (sempre aceitei que em alguns casos nada se pode fazer para evitar o terceiro estágio [a morte]), mas algo me diz que meu olhar se enganou. Não podemos negar que existe hoje uma REVOLUÇÃO em curso. As pesquisas com as células-tronco ganham cada vez mais espaço perante os seus entraves e os pacientes sabem disso. Eles estão ávidos para virar o jogo, eles estão prontos para o enfrentamento, eles agora têm algo que nunca tiveram: ESPERANÇA.

Para saber mais:

http://www.celula-tronco.com/index.php

http://www.youtube.com/watch?v=pTrwVJ7ctFQ

 

Gibran Durães

- A coluna “Saúde” vai ao ar todas as sextas-feiras aqui no Incomode-se!

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O império da forma

beyonce

Foi-se o tempo em que o conteúdo era cabal para se emplacar um sucesso no mundo da música! Nos tempos bicudos inagurados pela Madonna, o que vemos é um império da forma. Cantoras como a Beyoncé (que, inclusive, está pestes a começar uma série de shows no Brasil – veja o vídeo) nos mostram a todo instante que a nossa indústria cultura não economiza nas frivolidades quando o o assunto é vender.

Novo ícone da música pop mundial, Byoncé, que abocanhou seis Grammys no último sábado (um recorde), é um claro exemplo de como nos deixamos levar, em muitos casos, pelas sensações e nos esquecemos de endossar nosso senso crítico e estético. É como se nada mais importasse além dos modismos, das tendências fabricadas.

Se fôssemos, realmente, reflitir acerca do que consumimos na nossa famigerada cultura de massas, com certeza não estaríamos tão envoltos e impressionados com o conjunto de pernas e danças vazias de tais cantoras americanas. Muito mais do que um intenso vazio conteudístico, as músicas que explodem na atual inústria fonográfica POP ( e olha que eu até já ouvi o Thriller do Michael Jackson) são exemplos de uma cultura de consumo amorfa, ao estilo do clássico “american way of life”.

A música Single Ladies (Put A Ring On It) da Beyoncé é exemplo do que estou falando. Numa das partes da canção a cantora “brada”:

 

I put gloss on my lips, a man on my hips
Eu coloco gloss nos meu lábios, um homem nos meu quadris

Hold me tighter than my Dereon jeans
Me agarre mais firme que meu jeans Dereon

acting up, drank in my cup
Comportando-se mal, bebeu no meu copo

I could care less what you think
Eu não poderia me importar menos com o que você pensa

I need no permission, did I mention
Eu não preciso de permissão, eu mencionei isso?

Don't pay him any attention
Não se importe com ele

'Cuz you had your turn But now you gonna learn
Pois você teve sua vez, mas agora você vai aprender

What it really feels like to miss me
Como é realmente sentir que me perdeu

Me parece óbvio que as pessoas tenham todo o direito de gostar do que bem entenderem. Porém, é mais óbvio ainda que precisamos saber avaliar o que estamos consumindo. Afinal, é por causa de peças culturais como essas que vemos a diversidade da arte definhar…

 
 
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Os incrementos do Gigante

compras-internet

A internet é, sem dúvida, um fenômeno social e comunicativo sem precedentes na história da humanidade. Com a Rede, estamos conectados a uma infinidade de possibilidades e, através da mesma, podemos desenvolver as mais variadas ações da nossa vida cotidiana e profissional. A web – e isso já nem é mais novidade – se tornou um verdadeiro universo onde potencializamos muito das nossas tarefas e compromissos sociais.

Não é de hoje, por exemplo, que compramos através da Internet. Todo mundo que tem uma conexão e alguma familiaridade com a Web já fez ou, pelo menos, pensou em fazer alguma compra on line. E possibilidades para isso não faltam. Hoje todas as grandes empresas do ramo têm lojas digitais para ampliar o fornecimento dos seus produtos. Com poucos cliques podemos comprar desde um simples livro de sebo até um sofisticado Ipod! E isso é uma revolução.

Um dos ícones desse atual “ápice” das vendas pela Web é, sem dúvida, a loja “Mercado Livre”: uma loja virtual que lucra milhões todos os anos só com vendas on line. Um verdadeiro império do comércio pela Rede… Mas, se fossemos mapear as vendas do Mercado Livre, o que será que encontraríamos? O blog “Geração Net” da Renata Leal fez essa sondagem e vejam o que ela desobriu:

O MercadoLivre apresentou alguns números do ano passado, incluindo a lista dos 10 tipos de produtos que mais venderam em 2009. Os smartphones, de novo, ficaram no topo, mas é interessante observar que as roupas masculinas saltaram de 10° lugar em 2008 para o 7° em 2009 e perfumes e fragrâncias agora estão na lista.[…] Essa mudança (pelo menos na minha forma de observar) significa que estamos diversificando os produtos que compramos pela internet, especialmente com coisas em que a chance de errar é menor.

E, provavelmente, é isso mesmo Renata! Pois, a medida que vamos nos adaptando a determinados tipos de compras e, ao mesmo tempo, vamos ganhando confiança para consumir pela Web, essas lojas e conglomerados vão lucrando mais e mais. Na verdade – e aqui eu estou até me arriscando – parece que estamos presenciando mais uma “mutação” desse nosso melindroso sistema capitalista. Afinal, a combinação entre as “necessidades” de comprar com o conforto de adquirir e receber tudo sem sair de casa, nada mais poderia fazer do que fortalecer o gigante…

Henrique Oliveira

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O MST político

Sem terra

Quando se fala em Movimentos sociais, muitos idealistas (coisa cada vez mais rara nos tempos de hoje) saltam em defesa da liberdade de atuação dessa forma de atuação política que é, não esqueçamos, socialmente LEGÌTIMA! Numa sociedade que se pretende mais igualitária e desenvolvida, é de cabal importância que os grupamentos humanos excluídos pela “verve” do sistema capitalista, se organizem e lutem, empunhando suas armas, contra o estabelecido, contra o que é tomado como dado!

Obviamente que, pela sua própria natureza,  muitas serão as frentes de atuação desses movimentos. E todas são justificáveis, desde que se resguardem os limites da ética e coerência política dentro dos quadros de ação. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), por exemplo, tem a legitmidade de um autêntico movimento social. Pois (e isso eu falo por conhecer de perto a realidade dos sem terra), como não poderia deixar de ser, trata-se de movimento sustentado em suas ações mais numerosas por uma maioria de agricultores entregues à exclusão social e à extrema pobreza.

A diferença do MST para tantos outros movimentos sociais que existem no país, é justamente o seu porte. O movimento Sem Terra é uma organização gigantesca que, em muitos dos seus setores, está envovida em altas esferas de atuação política. Com a vitória do PT, histórico aliado dos Sem terra, o MST ficou ainda mais complexo e muito mais imerso nas esferas políticas do país.

Não dá mais para imaginar que o MST seja uma mero aglomerado de trabalhadores pobres e semi-analfabetos. Ele é muito mais que isso. É um movimento social que está intimamente ligado ao partido que comanda a nação atualmente. É uma organização complexa que têm em seus quadros desde os pequenos e pobres agricultores até letrados e intelectuais remanescentes da esquerda resistente da década de 1970.

O MST não age mais com ingenuidade. E isso é fato! tanto é que o jornal Estadão publicou hoje uma matéria afirmando que o movimento não irá realizar grandes ocupações nas vésperas das eleições. Segundo o texto:

O Movimento dos Sem-Terra deve concentrar sua agenda de ocupações no primeiro semestre de 2010, diminuindo as atividades com a aproximação do calendário eleitoral. A estratégia, admite um coordenador do movimento, tem por objetivo não municiar a oposição com argumentos que possam prejudicar partidos ligados ao movimento. […] O integrante da coordenação nacional do MST João Paulo Rodrigues avisa que, para a organização, o primeiro semestre será intenso, com muitas mobilizações e ocupações de terra. "Por ser um ano de eleições, tudo o que a gente faria no ano inteiro vai ter de fazer nos primeiros cinco ou seis meses", informa. Fonte: Estadão

Em outras palavras, aqueles que suspeitavam que o MST, há muito tempo, estava envolvido no jogo partidário da eleições, tinham razão. Eles estão! Porém, isse não é motivo para os latifundiários e seus cooptados meios de mídia descaracterizem o movimento! Afinal, para crescer nem o MST, nem nenhum outro movimento social poderia escapar desse jogo…

Henrique Oliveira

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A Sociedade funcional de Durkheim

Cidade Esse é o texto inaugural de nossa coluna, que pretende ser semanal, no “Incomode-se”. Optamos por dar a tacada inicial, tratando da própria existência da coluna. Primeiro, cabe indagar: terá utilidade? E, segundo, conseguirá sobreviver às críticas ferozes? Não colocaremos respostas aqui, mesmo porque, no momento, ou serão pretensiosas em demasia ou descabidas, haja vista, que nem se sabe quem irá ler, muito menos, se haverão comentadores. De todo modo, correremos os riscos e pretendemos alçar nossos voos. Mesmo porque, uma coisa anda em extinção em grande parte de nossa sociedade, aqui num sentido mais genérico possível, as reflexões criativas e críticas. Acostumamos, sobretudo, a repetir, omitir e, muitas vezes, abster-se diante de fatos, realidades e situações. Aqui, tentaremos manter, pelo menos, criatividade e reflexões críticas.

Mas, o que é a sociedade, afinal? Será ela qualquer coisa de social, de coletiva? Um mero agrupamento humano ou, também, animal? Para iluminar um pouco desse debate, traremos em cena o ilustre Sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), ainda que para apresentar noções bem gerais. A sociedade, para este autor, seria o resultado de agrupamentos humanos, mas que também podem ser de animais, ou seja, não é algo estritamente humano. Todavia, envolve níveis de complexidade e evolução social diferenciados. Assim, a sociedade humana é sim diferente e superior aos aglomerados de animais.

No nosso caso, estaremos sempre tratando, pelo menos, aparentemente, das sociedades humanas. Digo aparentemente, pois diversas vezes ocorrem fatos e situações mais condizentes com bichos irracionais do que com seres dotados de racionalidade, basta lembrar a devastação à natureza ou crimes horrendos. A Sociedade, em Durkheim, é uma totalidade superior às partes integrantes, superior a soma dos agregados individuais. Ela é comparada a um organismo sempre em ótimo funcionamento dos órgãos, formando uma realidade peculiar, sui generis. Constitui, sobremaneira, conjuntos de situações coletivas, dotando os indivíduos de regras, normas e práticas comuns, formadoras de deveres a serem seguidos, compondo uma moral. São essas regras e normas que mantém a estrutura social em harmonia, com suas partes em perfeita funcionalidade, para tanto, se valem de sanções punitivas ou restitutivas, dependendo do crime cometido. Não há sociedade que não tenha sua moral, afirma Durkheim, mesmo as tribais, antigas, “primitivas”. Claro que, a própria sociedade só é possível devido à junção dos indivíduos, em convívio, compartilhando situações, saberes, crenças. Isso faz parte de uma realidade essencial para a própria existência humana. Só pode haver a existência de seres humanos em sociedade, porque estes são, por extensão, seres sociais. Esta é uma máxima do autor – conceber a própria existência dos humanos atrelada a convívios coletivos, sociais – conformando uma lei social, racional. Por fim, a sociedade seria uma “obra de justiça”, justamente por conter a liberdade total individual, sobretudo, para as sociedades industriais/modernas, onde as individualidades são mais afloradas.

De resto, vale dizer que a sociedade vai se movendo pelas próprias relações humanas, por interações sociais. Isso termina por consolidar algo bastante complexo e diversificado, o que não nos permite resumir seu significado em poucas palavras. Pode-se finalizar dizendo que existem interpretações diversas para a sociedade (de diversos autores) e não existe uma única identidade social envolvida. Aliás, devido ao fato dela ser assim, complexa, sempre surgem novos estudos, novas pesquisas, e, todo dia, aparecem pessoas e grupos tentando desvendar seus segredos, seja de uma sociedade de amigos, de bairro, religiosa, política ou a própria sociedade em geral. Temos a certeza de uma coisa: é tudo social e está tudo em movimento, compondo dinâmicas sociais, apesar dos elementos estáticos garantidos, principalmente, pelas tradições e costumes.

Bruno Durães

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